Qualidade da água e monitorização contínua nos sistemas hidráulicos hospitalares em Portugal

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No contexto das unidades de saúde, a água é uma infraestrutura crítica que atravessa todas as áreas assistenciais e técnicas. A rede hidráulica alimenta pontos terminais (torneiras, chuveiros, lavatórios clínicos), suporta a produção e distribuição de água quente sanitária (AQS) com os respetivos retornos (rAQS), intervém em sistemas de climatização e, consoante a tipologia do edifício, relaciona-se com equipamentos e processos particularmente sensíveis.

Do ponto de vista da engenharia hospitalar, isto obriga a encarar a água como um sistema dinâmico, no qual a qualidade não se define por um valor isolado, mas sim pela estabilidade do conjunto: estabilidade térmica, equilíbrio físico-químico, controlo do crescimento biológico, rastreabilidade e compatibilidade com os materiais.

Esta visão é especialmente relevante no contexto português, onde o enquadramento legal e técnico que regula a prevenção da Legionella e, de forma mais ampla, a qualidade da água destinada ao consumo humano no interior dos edifícios, promove uma abordagem baseada no risco e na responsabilidade operacional do titular. O Decreto-Lei n.º 69/2023, em articulação com a Lei n.º 52/2018 e a Portaria n.º 25/2021, reforça a necessidade de identificar pontos críticos, estruturar planos de controlo e documentar atuações com capacidade de resposta perante desvios.

Este enquadramento está diretamente alinhado com a Diretiva (UE) 2020/2184, que introduz um modelo de gestão preventiva assente na avaliação e gestão do risco ao longo de toda a cadeia, incluindo explicitamente o âmbito dos sistemas de distribuição predial. Na prática, esta diretiva impulsiona que a qualidade da água seja gerida como um sistema e não como a soma de análises pontuais: exige compreender como a água se comporta na rede interior do edifício (temperatura, estabilidade do desinfetante, pH/ORP, turvação e sinais biológicos associados ao biofilme) e implementar medidas proporcionais sempre que a avaliação de risco o justifique.

A qualidade da água como variável estrutural, e não como verificação pontual

Nas redes hospitalares, a qualidade da água é frequentemente simplificada em “parâmetros dentro do intervalo” ou “análise conforme”. Contudo, do ponto de vista técnico, o risco constrói-se através de desestabilizações sustentadas ou recorrentes.

Um sistema pode estar “dentro do intervalo” numa campanha de amostragem e, ainda assim, apresentar janelas temporais em que o equilíbrio se degrada: queda de temperatura no retorno, perda de residual desinfetante em troços mais desfavoráveis, variações de pH que alteram a eficácia do biocida ou aumento de turvação por arrastamentos e fenómenos internos. Em hospitais, onde coexistem edifícios antigos com ampliações, setores com cotas diferentes e ramais longos, estas heterogeneidades são frequentes.

Por isso, o controlo da qualidade da água deve ser entendido como controlo do comportamento hidráulico e físico-químico: como a temperatura se mantém ao longo do tempo, como o desinfetante chega aos pontos críticos, como se comporta o potencial redox (ORP) enquanto indicador agregado de capacidade oxidante, que sinais surgem na turvação e, sempre que possível, que evidência se obtém sobre bioatividade associada ao biofilme. O objetivo não é medir mais, mas medir para interpretar.

Da medição manual à monitorização contínua: o salto operacional

O modelo tradicional de controlo em edifícios complexos apoia-se em leituras manuais e em amostragens microbiológicas com frequência definida. Este esquema tem sido útil para assegurar um mínimo documental e para verificar conformidade, mas apresenta limitações bem conhecidas.

Fornece “fotografias” em pontos concretos e deixa grande parte do tempo de operação sem observação. Quando um resultado microbiológico confirma presença, o fenómeno já ocorreu; além disso, entre campanhas podem existir flutuações que não ficam registadas.

No Complexo Hospitalar de Lisboa Centro, a passagem para monitorização contínua permitiu precisamente evidenciar essas variações intermédias que um registo pontual não capta.

Ao iniciar o registo automático de dados, com séries contínuas por variável, identificaram-se padrões relevantes como quedas térmicas intermitentes no retorno da AQS em determinadas janelas horárias, setores com maior variabilidade do residual desinfetante e oscilações de ORP associadas a alterações operacionais ou a ajustes de dosagem.

Não se tratou de “descobrir” um problema oculto, mas sim de, pela primeira vez, dispor de resolução temporal suficiente para distinguir entre um sistema estável e um sistema que, apesar de cumprir pontualmente, apresenta episódios de perda de controlo.

Este tipo de evidência altera o enquadramento da engenharia. A questão deixa de ser “está conforme agora?” e passa a ser “mantém-se estável?” e “em que setores e em que condições se desestabiliza?”. Em termos de qualidade da água, estabilidade equivale a segurança e preservação de ativos. (...)

Autor Álvaro López Rodríguez, Engenheiro Energético e Ambiental
Diretor Técnico-Comercial - Italsantech

 
Leia o artigo completo na TecnoHospital nº 134, março/ abril de 2026 dedicada ao tema "Inovação e sustentabilidade no SNS"

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