Entrevista a Cecília Mendonça

Entrevista por: Durão Carvalho, Christina Genet e Luís Marques
Fotografia: Christina Genet

Autora do livro “Como nasce um hospital”, Cecília Mendonça é uma das principais pensadoras da programação hospitalar em Portugal. Engenheira química de formação, descreve a evolução do processo de criação de unidades de saúde ao longo da sua carreira na Direção-Geral das Instalações e Equipamentos da Saúde e, mais tarde, na Espírito Santo Saúde, atual Luz Saúde.

Pode falar do seu percurso académico e profissional?

Sou de Lisboa. Nasci em 1948, já foi há uns anos. Desde miúda que gostava muito de brincar com tubos de ensaio, pozinhos e líquidos, fazer cores e depois solidificar tudo aquilo. Na altura, o meu pai ofereceu-me um estojo de química, com o qual aprendi a fazer cristais de sulfato de cobre. Fiquei encantada e achei sempre que a minha vocação era a química. Quando chegou a altura de tomar decisões a sério, comecei a pensar: química, só química… provavelmente acabaria por ser professora, e isso não era o que queria. O que me interessava era trabalhar em laboratório, mas também sabia que, naquela altura em Portugal, isso não era fácil, muito menos para mulheres. Depois de conversar com várias pessoas, decidi virar-me para a Farmácia. Pensei que, nessa área, também existiam laboratórios e poderia ser uma boa opção. Só que, na altura, era preciso ir para o Porto, porque a Faculdade de Farmácia de Lisboa não tinha o curso completo. Hoje em dia, pega-se na mochila e vai-se estudar para outra cidade. Mas naquela época não era assim. As coisas eram mais complicadas e sair de casa tão cedo fazia alguma confusão. Resolvi então entrar no Técnico e tirar Engenharia Química. Acabei por juntar as duas áreas e, sinceramente, acho que fiz bem. Embora tenha pena de nunca ter conseguido exercer verdadeiramente essa função ao longo da minha vida profissional. Na realidade, continuava a ser muito difícil para uma mulher arranjar emprego na indústria. Era mesmo complicado. Lembro-me, aliás, de ir a uma empresa falar com uma pessoa conhecida do meu pai — portanto, sabia perfeitamente que eu era mulher antes de eu lá chegar — e ouvi-lo dizer: “Pois é, filha, se fosses homem, dava-te emprego.” Nunca mais me esqueci disso. São coisas que marcam.

Quando acabei o curso, comecei a procurar emprego sem saber muito bem o que queria fazer. Naquela altura não havia internet, nem nada disso. Procurávamos anúncios nos jornais. Candidatei-me a várias coisas, fui a uma ou duas entrevistas, mas eram sobretudo para vender produtos químicos, o que não me interessava minimamente.

Até que apareceu um anúncio do Ministério da Saúde. Procuravam licenciados em Matemática, Economia, Engenharia, Medicina, Arquitetura… No fundo, bastava ter uma licenciatura. Respondi ao anúncio e fui chamada para fazer testes. Éramos talvez umas 20 pessoas. Entrei para o Ministério da Saúde em maio de 1972, poucos meses depois de terminar o curso. Quando cheguei, não fazia ideia do que ia fazer. Mas sou uma pessoa que se adapta facilmente às circunstâncias e não reage contra elas à partida. Lembro-me de me fazerem uma pergunta que, para mim, era quase chinês: “Quer ir para o serviço de organização ou para o serviço de gestão?” Como não fazia ideia do que se fazia num lado ou no outro, perguntei o que era o serviço de gestão. Disseram-me: “Gestão de pessoal.” E eu pensei imediatamente: isso não. Quero ir para a organização, mesmo sem saber bem o que era. E acho que escolhi bem. Comecei por ser, digamos, a secretária do grupo. Mas, aos poucos, comecei a ouvir as conversas entre médicos, engenheiros e arquitetos. Fui-me interessando e comecei a perceber o que estava em discussão, o que estava em causa e como eram tomadas as decisões. Naquela altura, ainda antes do 25 de Abril, o Engenheiro Caetano fazia questão de que as decisões fossem democráticas. Portanto, decidia-se por votação. Eu sentia-me bastante ignorante no meio daquelas pessoas. No entanto, a verdade é que, tirando o Engenheiro Caetano, ninguém sabia realmente nada sobre programação hospitalar. Estávamos todos praticamente ao mesmo nível. O grupo foi evoluindo e eu comecei a participar cada vez mais. Já não fazia apenas atas, participava nas discussões, fazia perguntas, levantava questões. Às vezes até brincavam comigo porque, a certa altura, as discussões eram tantas que eu dava duas pancadinhas na mesa e dizia: “Afinal, o que é que eu escrevo?” Porque alguma coisa tinha de ficar registada. E isso obrigava toda a gente a tomar uma decisão, porque, senão, podíamos ficar ali indefinidamente a discutir.

A vida decorreu assim durante seis anos, até sermos surpreendidos por um despacho do secretário de Estado Correia de Campos, que transferia a competência da programação da Direção-Geral dos Hospitais para a Secretaria-Geral. Quando começaram a surgir os programas elaborados pelo Engenheiro Eduardo Caetano, começámos a encontrar aspetos desatualizados — por exemplo, ainda se previa o uso de luvas empoadas, em vez de descartáveis. Percebemos rapidamente que os programas já não estavam a ser elaborados da forma mais adequada. A certa altura — já não consigo reconstituir exatamente como aconteceu — fui eu quem propôs avançarmos novamente com um grupo de programação, porque as competências nunca chegaram verdadeiramente a sair da Direção-Geral dos Hospitais, continuavam previstas na lei. E, se estavam na lei, tinham de ser executadas. Propus então retomar a programação hospitalar e criar um novo grupo, que fiquei a coordenar. Foi assim que começámos novamente a produzir uma série de programas hospitalares e funcionais, enquanto o Engenheiro Caetano deixou de os elaborar. Entretanto, chegou o momento em que a Direção-Geral dos Hospitais ia ser extinta e integrada na Direção-Geral das Instalações e Equipamentos da Saúde. Nessa altura, eu já representava regularmente a Direção-Geral dos Hospitais na avaliação de concursos internacionais de conceção e construção. Era sempre eu que integrava essas comissões e, de certa forma, já estava há mais tempo “do lado de lá”. Como a direção-geral ia terminar, pareceu-me lógico ser transferida para a nova estrutura. Sentia-me confortável e acreditava que ali poderia continuar a fazer aquilo que sabia fazer bem. Fui então falar com o diretor-geral e pedi-lhe autorização para transitar de uma direção-geral para a outra. Acabei por integrar a Direção-Geral das Instalações e Equipamentos da Saúde, onde me dei muito bem. (...)

Leia a entrevista completa publicada na TecnoHospital nº 135, maio/ junho de 2026, dedicada ao tema "Planeamento, programação, projeto e construção hospitalar" 

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