O papel da Arquitetura na conceção de hospitais sustentáveis: do planeamento à construção

Foto: Hospital Todos-os-Santos
Os hospitais são infraestruturas de elevada complexidade funcional e técnica, responsáveis por um significativo consumo de recursos naturais e energia. A crescente preocupação com a sustentabilidade ambiental, económica e social torna indispensável uma abordagem integrada ao planeamento, programação, projeto e construção hospitalar. A Arquitetura, enquanto disciplina de síntese, desempenha um papel central na articulação entre requisitos clínicos, tecnológicos e humanos, promovendo edifícios de saúde mais eficientes, flexíveis e resilientes.
Os edifícios hospitalares distinguem-se por apresentarem elevados níveis de consumo energético, exigências técnicas rigorosas e funcionamento contínuo, sendo reconhecidos como um dos tipos de edifícios públicos com maior impacte ambiental¹. Paralelamente, os hospitais são espaços cuja qualidade arquitetónica influencia diretamente a prestação de cuidados de saúde, o bem-estar dos utentes e as condições de trabalho dos profissionais².
A sustentabilidade em Arquitetura Hospitalar ultrapassa a dimensão ambiental, integrando aspetos funcionais, sociais e económicos ao longo de todo o ciclo de vida do edifício³. Neste contexto, a Arquitetura assume um papel estratégico, contribuindo para soluções que conciliem desempenho técnico, humanização e responsabilidade ambiental.
O papel da Arquitetura na conceção de hospitais sustentáveis tem vindo a ganhar relevância num contexto em que os sistemas de saúde enfrentam pressões crescentes ao nível da eficiência, da qualidade dos cuidados e da gestão de recursos. Tradicionalmente, a sustentabilidade em ambiente hospitalar tem sido associada sobretudo à redução do consumo energético e à incorporação de tecnologias mais eficientes. No entanto, esta perspetiva revela-se limitada face à complexidade funcional e clínica destas infraestruturas.
Um hospital sustentável deve ser entendido como um sistema integrado, onde a Arquitetura desempenha um papel estruturante ao articular dimensões ambientais, operacionais e clínicas. Neste enquadramento, o projeto arquitetónico deixa de ser apenas um suporte físico para se afirmar como um instrumento estratégico capaz de influenciar o desempenho global da instituição ao longo do seu ciclo de vida, indo ao encontro da necessidade de “aliar condições de conforto, bem-estar e saúde […] com uma boa performance ambiental […] promovendo a sustentabilidade ao longo do ciclo de vida do edifício” (G 07/2022 – Guia para Hospitais Sustentáveis da ACSS).
Planeamento hospitalar e sustentabilidade
O planeamento hospitalar constitui a base estruturante de qualquer empreendimento de saúde, condicionando de forma decisiva o desempenho funcional e ambiental do edifício4. Decisões relacionadas com localização, integração urbana, dimensão e modelo organizacional têm impactos significativos na eficiência energética, nos fluxos logísticos e na acessibilidade.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, um planeamento adequado permite reduzir custos operacionais, melhorar a eficiência dos serviços e minimizar impactes ambientais ao longo do tempo5. A Arquitetura contribui para esta fase ao traduzir objetivos estratégicos em modelos espaciais coerentes, flexíveis e adaptáveis, capazes de responder à evolução das necessidades clínicas e tecnológicas.
Estas preocupações refletem-se em instrumentos como o Guia para Hospitais Sustentáveis da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) e no Programa de Eficiência de Recursos e Descarbonização na Saúde (ECO@SAÚDE), alinhado com o Programa de Eficiência de Recursos na Administração Pública para esta década (ECO.AP 2030), que reforçam a necessidade de integrar critérios de sustentabilidade desde a conceção do edifício hospitalar, promovendo eficiência energética, eficiência hídrica, gestão ambiental e redução de emissões. (...)
Autores: Miriam Godinho, Mestre em Arquitetura em 2020, pelo ISCTE
Integra a ACSS, I.P, na Unidade de Instalações e Equipamentos, com participação na apreciação de projetos de edifícios de Saúde e programas funcionais
Paula Leitão, Mestre em Arquitetura em 2010, pela Escola Universitária de Coimbra
Integra a ACSS, I.P, na Unidade de Instalações e Equipamentos, com participação na apreciação de projetos de edifícios de Saúde e da RNCCI
Leia o artigo na TecnoHospital nº 135, maio/ junho de 2026, dedicada ao tema "Planeamento, programação, projeto e construção hospitalar"
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