Medicina Intensiva 2030: proposta de um modelo integrado de gestão clínica centrado em pessoas, dados e valor
- 26 janeiro 2026, segunda-feira
- Gestão

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Os Serviços de Medicina Intensiva (SMI) encontram-se num momento de transformação sem precedentes. Após termos refletido sobre os modelos de gestão económica e financiamento num artigo anterior, importa agora abordar uma dimensão igualmente crucial: a transformação do modelo de governança clínica.
Este modelo de governança clínica tem como base de construção as seguintes dimensões:
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A missão assistencial;
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A capacidade instalada;
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Equipas multidisciplinares
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Recursos humanos;
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O doente, o cuidador e a doença;
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Medicina intensiva baseada em valor;
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Inteligência Artificial e medicina intensiva
A missão assistencial
Esta questão assume particular relevância num contexto em que a medicina intensiva portuguesa, mantendo velhos desafios, é confrontada com outros novos, de tão ou mais elevada complexidade. Em relação aos velhos desafios, o envelhecimento progressivo da população e o crescente incremento das suas morbilidades fazem com que as fronteiras da intervenção clínica que hoje existem sejam mais permeáveis do que as de há 10 anos, mas também é verdade que certamente que a medicina intensiva daqui a cinco anos será definida por novas e mais abrangentes áreas de intervenção clínica, outrora impensáveis.
No que respeita aos novos desafios, a dimensão assistencial da medicina intensiva sai de um modelo fechado dentro de portas para ocupar todo o circuito do doente crítico, nomeadamente sala de emergência, emergência intra-hospitalar, consultas de grupo/multidisciplinares, unidades polivalentes e monovalentes, consultoria, follow-up precoce (handover) e extra-hospitalar, admissão a programa em contexto de imunoterapia e participação em ensaios clínicos das mais diversas complexidades.
A medicina intensiva de hoje e amanhã precisa estar organizada em grupos de trabalho específicos capazes de coordenar estas diferentes ações, reconhecendo, assim, o valor específico dos seus diferentes profissionais.
A capacidade instalada
Persiste o velho, mas redimensionado, desafio da capacidade instalada, uma vez que apesar de passarmos de 6,4 para 10,9 camas por 100 mil habitantes entre 2017 até 2025, também é verdade que a média da OCDE passou de 11,5 para 16,9 camas, pelo que apesar do enorme investimento dos últimos anos, a diferença entre a realidade portuguesa e a média da OCDE é maior hoje do que há oito anos. Se a medicina intensiva de hoje é sobretudo dedicada ao doente de nível II e III (preferencialmente), a medicina intensiva de amanhã precisa liderar a revisão dos modelos assistenciais graduados das instituições hospitalares. Em 2022, a Intensive Care Society (UK) afirma que devem existir diferentes áreas de prestação de cuidados a doença aguda nas unidades hospitalares:
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Nível 0 – Enfermarias;
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Nível 1 – Enfermarias com monitorização contínua;
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Nível 1,5 – Monitorização e vigilância diurna apertada;
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Nível 2 – Medicina intensiva / disfunção de 1 órgão;
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Nível 3 – Medicina intensiva / disfunção 1 ou mais órgãos
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Nível 4 – Medicina intensiva / disfunção 1 ou mais órgãos - Centros de Referência
As áreas clínicas nível 0 e 1 podendo existir fora da responsabilidade clínica da medicina intensiva, devem estar em articulação diária com a mesma de modo a identificar precocemente o doente em deterioração clínica evitando assim o atraso de intervenções modificadoras de prognóstico. (...)
Autores: Alexandra Almeida, Igor Milet e Joana Duarte
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