Coreia do Sul avança no desenvolvimento de exoesqueleto de corpo inteiro controlado por Inteligência Artificial

FOTO SITE SERVERANCE HOSPITAL
João Guilherme Oliveira
O Serverance Hospital, na Coreia do Sul, vai liderar os ensaios clínicos de um novo projeto governamental focado no desenvolvimento de um exoesqueleto vestível de corpo inteiro. O dispositivo médico inovador utilizará Inteligência Artificial para ler os sinais cerebrais de doentes tetraplégicos e traduzi-los em movimentos físicos reais.
O projeto, com uma duração prevista de sete anos, conta com um financiamento estatal de 20,25 mil milhões de won (cerca de 13 milhões de dólares). Com o contributo de fundos privados, o investimento total ascenderá a aproximadamente 30 mil milhões de won (19 milhões de dólares), informou a instituição hospitalar em comunicado.
Ligação bidirecional entre o cérebro e o robô
O grande objetivo da iniciativa é a criação de um dispositivo médico baseado numa “ligação bidirecional cérebro-IA-robô”, apelidado de “humanoide vestível”. O sistema assenta em dois pilares fundamentais.
- Leitura de intenções: a IA descodifica os sinais cerebrais do utilizador e aciona os motores do robô para realizar o movimento pretendido.
- Feedback sensorial: O percurso inverso também se realiza, permitindo que a informação tátil, de pressão e de postura do exoesqueleto seja transmitida de volta ao cérebro do doente.
O público-alvo desta tecnologia são indivíduos com paralisia dos quatro membros decorrente de lesões na espinal medula cervical ou de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), condições que afetam tanto a capacidade motora como a sensorial.
Até a data, a restauração dos circuitos biológicos que unem o movimento e a sensação permanecia um dos maiores desafios da medicina de reabilitação. As abordagens tradicionais limitavam-se a potenciar as funções corporais residuais do paciente e a recorrer a dispositivos de assistência passiva.
O cronograma de desenvolvimento está estruturado em três fases:
- 2026-2027: Aquisição das tecnologias de bases para elétrodos corticais invasivos de alta densidade e integração cérebro-robô.
- 2028-2029: Integração de hardware e software e início dos ensaios clínicos com os doentes.
- 2030-2032: Conclusão do sistema unificado e processo de aprovação regulamentar junto do Ministério da Segurança dos Alimentos e Medicamentos da Coreia do Sul.
Tendências globais
A Coreia do Sul tem mostrado um forte pioneirismo nesta área: o Serverance Hospital inaugurou a primeira sala de terapia robótica da marcha no país em 2011 e o primeiro centro de reabilitação robótica em 2018. Neste novo consórcio, o hospital terá ainda a responsabilidade de monitorizar a função respiratória dos participantes de alto risco, garantindo a utilização segura do exoesqueleto.
Este avanço acompanha uma tendência científica global em torno da robótica de reabilitação. Recentemente, investigadores da Universidade de Queensland, na Austrália, desenvolveram um exoesqueleto para ajudar doentes com doenças do neurónio motor a caminhar por períodos prolongados, enquanto que a Universidade Politécnica de Hong Kong criou um dispositivo robótico de tornozelo e pé focado na recuperação em sobreviventes de acidentes vasculares cerebrais (AVC).
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