Áreas críticas no hospital: Unidade de Reprocessamento de Dispositivos Médicos

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Apelidada de “coração do hospital”, a Unidade de Reprocessamento de Dispositivos Médicos (URDM) desempenha um papel fundamental na prevenção das infeções associadas aos cuidados de saúde (IACS). É uma unidade altamente diferenciada, onde se realizam processos complexos e rigorosamente controlados que garantem a limpeza, desinfeção, esterilização e rastreabilidade dos dispositivos médicos de uso múltiplo (DMUM), assegurando que estes regressam aos serviços clínicos em condições seguras para reutilização.

Este artigo tem como principal objetivo oferecer ao leitor uma visão abrangente desta unidade como área crítica hospitalar, destacando a sua relevância para a segurança e qualidade dos cuidados de saúde. Pretende-se descrever brevemente a organização dos fluxos de trabalho, os riscos inerentes e as práticas essenciais que asseguram a segurança, qualidade e rastreabilidade no reprocessamento de dispositivos médicos de uso múltiplo.

A URDM  

O reprocessamento de dispositivos médicos constitui um pilar essencial para a segurança dos utentes de qualquer entidade que preste cuidados de saúde. É na URDM que se realizam as atividades necessárias para que os dispositivos possam ser utilizados de forma segura, minimizando o risco de infeções e assegurando que mantêm as propriedades necessárias ao uso clínico.

Segundo o Regulamento Europeu 2017/745 relativo aos dispositivos médicos, o termo “reprocessamento” refere-se a qualquer processo executado num dispositivo usado para permitir a sua reutilização segura. Este processo inclui limpeza, desinfeção, esterilização e procedimentos conexos, bem como testes e restabelecimento da segurança técnica e funcional do dispositivo utilizado.

A missão da URDM é, portanto, garantir a segurança do utente através de um reprocessamento eficaz, padronizado e rastreável, assegurando que todos os dispositivos médicos utilizados nos cuidados de saúde sejam lavados, desinfetados e esterilizados de acordo com os requisitos regulamentares, normas aplicáveis, artigos científicos e cumprimento das boas práticas. 

Por envolver procedimentos extremamente complexos, tecnicamente exigentes e com elevado risco biológico, a URDM é reconhecida como uma área crítica no hospital. A sua operação requer infraestruturas adequadas, normas rigorosas e uma equipa especializada, bem como procedimentos de contingência que assegurem resposta eficaz a eventuais falhas, garantindo sempre a segurança do processo e o cumprimento dos requisitos aplicáveis.

A URDM como área crítica hospitalar

Uma área crítica hospitalar pode ser definida como um espaço dentro do hospital onde existe alto risco de infeção, contaminação ou transmissão de microrganismos, exigindo controlo rigoroso dos riscos ambientais, monitorização constante e protocolos de segurança específicos. Outra perspetiva considera uma área crítica hospitalar como um local onde se realizam procedimentos altamente técnicos e especializados, cujo correto desempenho tem impacte direto na segurança e na qualidade dos cuidados prestados aos utentes.

Entre os espaços mais frequentemente incluídos como áreas críticas, encontramos na literatura blocos operatórios; unidades de cuidados intensivos; laboratórios, ou áreas de diagnóstico (manipulação de material biológico contaminado); áreas com risco elevado (isolamentos, zonas de tratamento especial); e a URDM, que se inclui nas duas vertentes de definição de área critica hospitalar. A inclusão da URDM como área crítica justifica-se pelos seguintes fatores:

  • Alta carga microbiana presente nos dispositivos médicos recolhidos (ainda contaminados), prontos a prosseguir as etapas do reprocessamento;

  • Manipulação direta de materiais cortantes e perfurantes contaminados;

  • Dependência de processos e equipamentos (mesmo que mantidos e validados), sujeitos a falhas, com impacte direto na segurança do utente.

  • Espaços físicos com características estruturais e circuitos específicos, de forma a garantir a segurança dos procedimentos aí efetuados.  

  • Potencial impacte sistémico a nível hospitalar, como, por exemplo, cancelamento de atividade clínica. 

Estrutura e fluxo da URDM

A evolução histórica destas unidades revela que, inicialmente, estavam localizadas junto dos blocos operatórios, sendo que várias etapas do reprocessamento seriam realizadas nos próprios blocos. Esta organização resultava numa significativa dispersão de recursos, variação de práticas e menor padronização — aspectos que seriam ultrapassados pela criação, dos então designados Serviços de Esterilização.

Em Portugal, a partir das décadas de 1980–1990, começou a ganhar forma o conceito de centralização do reprocessamento, passando estes serviços a ser conhecidos como Serviços de Esterilização Centralizados. Embora já existisse alguma delimitação funcional de áreas, os circuitos de trabalho permaneciam pouco definidos e ainda distantes dos modelos atuais. No final da década de 1990, com o aparecimento de equipamentos mais avançados, a clara definição de circuitos sujo/limpo/esterilizado e a normalização de processos, a centralização foi progressivamente implementada nas unidades hospitalares. Este avanço traduziu-se em ganhos significativos, nomeadamente na padronização de procedimentos, melhoria da qualidade e alinhamento com normas internacionais.

Com o progresso tecnológico e o aumento das exigências de segurança — associadas ao controlo de infeções, rastreabilidade e enquadramento regulamentar europeu — o tradicional conceito de Central de Esterilização evoluiu para a designação de Unidade de Reprocessamento de Dispositivos Médicos, refletindo uma abordagem mais abrangente e orientada para a gestão completa do ciclo de vida dos dispositivos médicos reutilizáveis. Perspetivando o futuro, tende-se para modelos ainda mais especializados, com unidades centralizadas extra-hospitalares, integradas ou externas ao contexto clínico, capazes de concentrar todas as atividades de reprocessamento com elevados padrões de qualidade, eficiência e segurança.

As atuais regulamentações e boas práticas recomendam que os fluxos de trabalho e áreas da URDM sejam organizados de forma a prevenir contaminações e garantir a rastreabilidade e segurança dos dispositivos. As áreas estão claramente definidas, separadas fisicamente, com base no conceito de circuito unidirecional: do “sujo” para o “limpo”, evitando cruzamentos entre materiais contaminados e esterilizados. É importante salientar que todos os procedimentos realizados dentro de uma URDM são efetuados com base nas instruções do fabricante original do DM.(...)

Autor: Catarina Rodrigues
Artigo publicado na TecnoHospital nº 132, novembro/ dezembro de 2025

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