Áreas críticas hospitalares - parte II

FOTO RICARDO GOMEZ ANGEL/ UNSPLASH
Este dossier constitui a continuação do dossier da revista anterior (TH131), sendo composto por cinco artigos que abordam vários riscos inerentes às infraestruturas físicas e manutenção das mesmas, bem como a evolução da prática terapêutica no tempo, com resposta de qualidade e valor, centrado no doente, no cuidador, nas equipas multidisciplinares dos profissionais de saúde e também dos profissionais de arquitetura e engenharia nos seus diversos ramos.
Tudo isto com o objetivo de, em tempo útil e precocemente, na fase de programação e planeamento dos projetos hospitalares, serem integrados de forma harmoniosa todos os saberes e conhecimentos para que as futuras instalações hospitalares reúnam as melhores condições de resiliência e combate ao risco para a saúde dos doentes e profissionais que nelas coexistam.
O artigo “Projetos críticos de empreitadas gerais em infraestruturas hospitalares” refere as normas, a legislação e as recomendações da ACSS, DGS e Infarmed que devem ser respeitadas na conceção/execução dos hospitais e, seguramente, nas áreas mais críticas daqueles, e sugere que estas áreas sejam executadas por empresas de experiência e conhecimento específico a partir de zonas em “tosco”, de modo a que o resultado final seja o mais exigente e adequado à prática clínica e/ou cirúrgica ao tempo atual. Dá como exemplo o que tem sido prática recorrente na execução das salas de exames imagiológicos: no final da construção empresas especializadas realizam a partir de zonas inacabadas a instalação dos equipamentos e a finalização daquelas salas.
O artigo “Áreas críticas hospitalares – Água e Legionella” evidencia a complexidade no tratamento e manutenção das redes hidráulicas, locais de excelência para o desenvolvimento de colónias microbianas. De facto, a desinfeção não é fácil e também acarreta riscos, quando recorrendo a produtos químicos, havendo outros fatores de risco provenientes de operações de alterações da rede de distribuição, dos materiais utilizados na sua execução.
Pessoalmente acompanhei, há muitos anos, uma situação no Hospital Termal Rainha D. Leonor, em que foram detetadas colónias de Pseudomona aeruginosa, tendo havido necessidade de “selar” uns furos de captação. Como o método de desinfeção preconizado era injeção de vapor, havia uma limitação fisíca porque a rede era executada em material termoplástico, porque devido às águas sulfurosas não era possível utilizar materiais ferrosos. Esta é uma evidência de que não há uma receita única e eficaz para fazer o tratamento e desinfeção das redes hidráulicas de modo a garantir a “pureza” da água utilizada nos hospitais, não só para o consumo normal como em processo de tratamento de doenças.
O artigo “Medicina Intensiva 2030: proposta de um Modelo Integrado de Gestão Clínica Centrado em Pessoas Dados e Valor” coloca este objetivo na necessidade de transformação do modelo de governança clínica, para o que identifica os seguintes parâmetros que devem ser perseguidos: missão assistencial, capacidade instalada, equipas multidisciplinares, recursos humanos, o doente, o cuidador e a doença, medicina intensiva baseada em valor, inteligência artificial e medicina intensiva.
O artigo faz o desenvolvimento de como tratar cada um destes itens.
O artigo “Integração multidisciplinar e avaliação estruturada do risco na conceção e controlo de infeções” desenvolve conceitos que já identifiquei anteriormente, e nada melhor do que transcrever a conclusão do artigo:
“A arquitetura hospitalar e os processos de conceção de infraestruturas constituem componentes essenciais da prevenção e controlo de infeções. Equipas multidisciplinares e ferramentas de avaliação de risco são estratégias de elevada eficácia para implementar ambientes seguros e reduzir IACS.
A adoção estruturada de metodologias como o ICRA, o SRA e as normativas internacionais (FGI, CDC, WHO) permite antecipar riscos, mitigar perigos estruturais e assegurar a implementação de soluções coerentes com os requisitos de biossegurança. Para que estas medidas produzam impacto real, é fundamental que os seus requisitos e responsabilidades sejam explicitamente inscritos nos cadernos de encargos e documentos contratuais, garantindo a sua observância por projetistas, empreiteiros e entidades executoras.
A segurança começa na conceção: quando os princípios de PCI são integrados desde a fase inicial do projeto e formalizados nos instrumentos contratuais, o impacto positivo estende-se à qualidade assistencial, à sustentabilidade operacional e ao reforço global da segurança do doente.”
Finalmente, o artigo “Áreas críticas de um hospital: os centros de dados” desenvolve o tema de como devem ser executados os centros de dados num hospital de forma a garantir a disponibilidade e fiabilidade dos dados em todo o tempo, ressalvando as questões da redundância das alimentações elétricas e as fontes alternativas face a um eventual apagão, bem como tratar e garantir a temperatura ambiente adequada a este tipo de instalações, uma vez que o aumento de temperatura afeta a estabilidade das comunicações, e os equipamentos ativos desta infraestrutura são fontes produtoras de calor.
Estes são os itens que nos levam a crer que motivarão os nossos leitores a lerem com interesse os artigos deste dossier.
Autor: Pascoal Faísca
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