Entrevista a José Fragata, diretor do serviço de Cirurgia Cardiotorácica do Hospital de Santa Maria

“Como gestor de Saúde, não me preocupa se os doentes levam bypass ou stents. Preocupa-me é saber quantos desses doentes voltam à vida de trabalho e às suas famílias

Entrevista por Abraão Ribeiro, Fernando Barbosa e Cátia Vilaça

Texto e fotografia por Cátia Vilaça

José Fragata deixa-nos uma visão sobre a complexidade da gestão de um serviço que envolve equipamentos dispendiosos, além de sugerir modelos alternativos de gestão da saúde em Portugal, que poderiam passar pela integração de público e privado. Reflete também sobre o erro clínico e a importância de o separar da negligência.

Qual a sua posição em relação à concentração de hospitais em grandes centros hospitalares?

Eu acho que a constituição desses centros hospitalares, no mandato de Correia de Campos, foi um erro colossal que a história já julgou. Quem governa tem, naturalmente, a sua visão e esta opção foi inspirada em França - a ideia era obter ganhos de eficiência. Dou o exemplo dos Hospitais Civis, uma escola cirúrgica notável, centralizada no Hospital de São José e incluindo os seus “anexos”, que eram, de facto, hospitais acessórios: a dada altura, um determinado Governo decidiu fragmentar os hospitais, dando independência a cada um deles, levando a que cada um desses hospitais tivesse adquirido uma estrutura e uma cultura próprias. Mais recentemente, alguém decide juntar tudo sob a mesma “capa”, colocando mais uma vez o Hospital de São José a capitanear – só podia ter corrido mal...

O Hospital Dona Estefânia, o Hospital dos Capuchos e o de Santa Marta nunca aceitaram, verdadeiramente, este novo status, e o hospital de São José continua igual a si próprio... Foi, na minha opinião, um erro colossal de macro gestão na saúde, e não se terá ganho assim tanto em eficiência. Ao invés de optar pela fusão de hospitais, deveria ter-se enveredado pelo modelo da afiliação hospitalar, ou seja, afiliávamos os hospitais, transversalizando áreas de ganho potencial, abordagem que o antigo Ministro Paulo Macedo terá ainda tentado – dou como exemplos a Farmácia Hospitalar, as lavandarias, os fornecimentos ou a biblioteca – mantendo cada hospital com personalidade própria e talvez com um administração autónoma. Veja-se o caso do Hospital de Santa Marta, que não tem telefonista local, nem serviço de pessoal, e esses são serviços importantes para os funcionários, sem os quais se descaracteriza a instituição. Tudo isso está agora “na sede”, no Hospital de São José, facto menos bem aceite por cada uma das instituições, agora parte do grande centro hospitalar. Não creio que tivéssemos tido ganhos de escala e perdeu-se muito na perda de marcas hospitalares e em acréscimos de resistência passiva a esta forçada mudança - esta é a minha perceção, estando na instituição há cerca de vinte anos. Sabe, nos hospitais, importam mais as pessoas do que os propriamente os equipamentos, e as pessoas não se reveem, de todo, neste modelo. Os hospitais têm uma componente humana de proximidade, que é para funcionários e para os doentes, mas ao mesmo tempo servem universos largos. Por exemplo, Santa Marta é, em muitas áreas, uma referência supranacional.

Uma das cirurgias mais mediáticas que realizou foi um transplante a uma criança, em 2016. Pode falar-nos sobre isso?

A primeira transplantação cardíaca neste país foi feita pelo Prof. João Queiroz e Melo em 1986, tendo como ajudantes, respetivamente, eu próprio e o Prof. Machado de Macedo como segundo. Depois disso, o Prof. Queiroz e Melo terá transplantado um grupo significativo de doentes, entre eles, uma criança de sete anos, tendo-me treinado rapidamente para transplantar autonomamente. Foi assim que, com base nessa exposição, devo ter até hoje reunido uma experiência pessoal bem superior a 200 transplantes cardíacos. Em 1991, cinco anos depois da primeira transplantação, transplantei no Hospital de Santa Cruz, a criança mais pequena à época, um bebé, doente que ainda está vivo, e que tinha 2 anos na altura.

Em 2005, já no Hospital de Santa Marta, fizemos a primeira assistência com coração artificial externo numa criança de 2 anos, que depois transplantámos com sucesso. Esta criança viria a falecer cerca de dez anos mais tarde, devido a um episódio de rejeição. Depois transplantámos um bebé com quase dois meses e agora este último, com pouco mais de um mês de vida e 2,4 kg de peso, que se encontra bem.

Eu tenho protegido muito a identidade dos pais destas crianças transplantadas. Normalmente, só libertamos notícias sobre casos bem-sucedidos, com interesse público, depois de os doentes estarem já em casa. Tal não sucedeu com o doente que recebeu o coração artificial porque o financiamento teve acordo da Tutela, tornando-se difícil conter a informação. As notícias em Saúde têm de ser geridas com muito cuidado, porque implicam questões de enorme sensibilidade. Na transplantação há um código de honra e de lei que deverá sempre tornar impossível a um qualquer recetor rastrear o seu dador, apesar de os doentes manifestarem, frequentemente, esse interesse.

No caso desta criança de 2016, tinha-me sido solicitada a implantação de um coração artificial, o que, em doentes abaixo de 3 kg, é uma aventura. Disse aos pais que talvez aparecesse um coração compatível para um desejável transplante, mas fi-lo sinceramente mais para seu consolo de momento do que por convencimento pessoal. A oferta de coração para bebé de 3 kg é, verdadeiramente, uma lotaria... Uma semana depois, numa maternidade próxima, morreu um bebé e os pais, sem saber de nada disto, disponibilizaram-se, já que o filho não logrou sobreviver, para que os seus órgãos pudessem ser usados. Trouxemos o dador para o meu bloco e o transplante decorreu lindamente. A Agência Lusa acabou por descobrir, dois ou três meses depois, mas o assunto foi gerido “com pinças” e eu não permiti nunca que os pais nem a criança aparecessem publicamente, porque seria muito fácil para os outros pais, que deram generosamente os órgãos, identificar o recetor. É preciso ter algum cuidado com estas situações, também porque os resultados em Saúde não são totalmente previsíveis...

Esta profissão é uma arte social, não é só uma arte técnica, ou melhor, é uma arte social que depende de uma esmerada componente técnica. O aparecimento de um coração para este bebé terá sido estatisticamente inverosímil, o que me leva a pensar que às vezes não estamos sós...

Leia o resto desta entrevista na edição nº 82 da TecnoHospital.

José Fragata licenciou-se na Faculdade de Medicina de Lisboa. Foi monitor de Anatomia mas acabou por enveredar pela carreira cirúrgica. Filho de um engenheiro que dirigiu o Hospital de Faro, esteve na génese do Hospital de Santa Cruz, onde trabalhou com João Queiroz e Melo, cirurgião cardiotorácico, pioneiro da transplantação. Passou por Inglaterra, onde trabalhou no Hospital for Sick Children , em Londres, e no Royal Liverpool Children’s Hospital. Já operou mais de 10 mil doentes, sendo 4500 crianças. Mantém uma carreira académica a par de uma intensa atividade clínica. Atualmente, dirige o serviço de cirurgia cardiotorácica do Hospital de Santa Marta, em Lisboa.

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